Kite agita o verão - Jornal Diário de Natal

Numa mistura bem à brasileira, o kitesurf - nova febre no verão nordestino - combina equipamentos e manobras do surfe, windsurfe,
snowboard e skate, com o detalhe de usar uma kite (pipa) para sustentar o atleta no vento. O esporte, onde apesar do nome o atleta não surfa, veleja, foi iniciado na Franca na década de 70 e hoje ganha as praias do litoral potiguar e atrai praticantes de todas as partes
do mundo, que vêem no Brasil condições favoráveis de vento e clima para a prática da modalidade. No Rio Grande do Norte, basta passear um pouco pelas praias do Litoral Norte e Sul para encontrar grupos de velejadores arriscando suas manobras e riscando o horizonte com
as cores nada discretas de suas pipas. Em Pirangi do Norte, onde surgiu a primeira escola de kitesurfe do estado, o mar é tomado por eles no fim de tarde, basta que haja vento suficiente para a prática.
Maracajaú, Jacumã, Pipa, Búzios e São Miguel do Gostoso também são destinos certos para quem gosta do esporte,
seja para aprender, praticar ou apenas assistir. Na Ponta do Santo Cristo, em São Miguel do Gostoso, um grupo de italianos não deixa escapar um único dia de sol e vento para lançar suas pranchas e pipas ao mar, exibindo saltos e manobras impensáveis em outro esporte aquático.
O italiano Eugenio Pavone, 36, surfa desde o 18 anos, e hoje é instrutor de wind e de kitesurfe em São Miguel. Ele acredita que a diferença entre os outros esportes de prancha para o kite é a maleabilidade das manobras, proporcionada pela pipa, dando um diferencial incentivador ao atleta.
‘‘Não há no surfe ou no windsurfe a graça de manobrar como no kite. Temos uma liberdade maior de movimentos, de saltos. Não parece, mas a diferença é grande’’, afirma. O professor de kite Ricardo Cardoso concorda. Assim como Eugenio, ele acredita na liberdade proporcionada pela
pipa e pela prancha, tornando-o a modalidade a mais divertida em sua categoria. ‘‘É um esporte que mistura todos os
outros, que nos dá mais condições de manobras e que diverte muito mais. Até mesmo para quem está assistindo’’.
Para o kitesurfe, a idade não é atributo de seleção esportiva.
Ao menos para começar a prática. Exemplo disso é o vice-campeão brasileiro de kite, Reno Romeu, que com apenas 15 anos faz parte da seleção brasileira e está entre os melhores do mundo, atrás de atletas como Guilly Brandão - primeiro lugar no Brasil.
‘‘É preciso muito treino e muita prática para se chegar à campeonatos aqui no Brasil. O nível dos competidores
é alto, mas ainda há pouca gente que o alcance.
Tenho 15 anos, e disputo com atletas de 25, de 20. É uma mistura’’, explica Reno.
Embora a mescla etária das competições seja grande, o kitesurfe exige disposição, força física e muito condicionamento
do atleta. Esses requisitos são fatores de eliminação não para a prática, mas para a competição. ‘‘O cara pode chegar aos 50 e conseguir aprender o kite. Mas vai ser difícil que ele faça as manobras mais difíceis. E ainda assim, é mais fácil você praticar com a pipa quando se tem mais
idade do que com o wind(surfe), por exemplo, onde os equipamentos são pesados e exigem muito mais do atleta’’,
afirma Ricardo Cardoso.
Aprender a velejar com kite exige um investimento razoável. As aulas no estado custam em média R$ 85 por hora, e para sair da escola com o mínimo de condições de praticar sozinho, o aluno chega a gastar R$ 500. ‘‘Isso fora o custo do equipamento. Geralmente, os iniciantes compram
material de segunda mão, e gastam cerca de R$ 1,5 mil. Com novos, o investimento é maior que R$ 3 mil’’, mostra Ricardo Cardoso.
Mas não adianta achar que, uma vez equilibrado na prancha e dominando a pipa, você está pronto para se aventurar sozinho por aí. O professor alerta que, por ser um esporte onde o protagonista é o vento, não se pode confiar na sorte. ‘‘Leva um tempo para que o aluno aprenda
a medir a velocidade, direção e intensidade do vento.
Recomendamos que, uma vez saído da escola, ele pratique próximo a pontos de encontro, ou mesmo da própria escola. Não vá sair por aí velejando sozinho porque não é nada seguro, um vento mais forte ou numa direção contrária à areia pode levá-lo para dentro do mar, causando
problemas’’, declara o professor.

 

Esporte incrementa o turismo e a economia


O fluxo de turistas estrangeiros que procuram o Brasil, o Nordeste em especial, para a prática do kitesurf têm aumentado a cada ano. E não só eles, mas praticantes do sul e sudeste do país acharam em cidades como Natal e Fortaleza as condições quase perfeitas para treino de kite: ventos fortes, praias limpas e com boa variação de ondas.

Segundo Ricardo Cardoso, o esporte começou a ter mais incentivo das autoridades e setor privado no ano passado, quando passou a ser divulgado com freqüência na mídia. A partir daí, ele acredita que a modalidade proporciona oportunidades de negócios e desenvolvimento turístico, inclusive no RN. ‘‘Essas pessoas que vêm para cá treinar passam meses, hospedados em hotéis, com suas famílias. E eles gastam bastante, passeando e conhecendo as praias, procurando aonde praticar. E isso é visível em quase todos os pontos de encontro de velejadores nas praias do Litoral Sul e Norte do estado’’, afirma o esportista. Exemplo disso é o número de italianos - maioria na prática do kite por estrangeiros em Natal e adjacências - que freqüentam a Ponta do Santo Cristo, em são Miguel do Gostoso. Na tarde da quinta-feira (02/02), nove pipas pofiam ser contadas,
e mais de 11 italianos passavam a tarde embaixo de uma palhoça, bebendo água-de-coco ou velejando.
A dona de pousada Maristela Teixeira, 50, confirma a tese do instrutor, afirmando que desde outubro passado sua pousada têm estado lotada, em sua maioria por estrangeiros praticantes do esporte. ‘‘Eles valorizam muito o nosso estado, e trazem dinheiro e desenvolvimento. É mais fácil um estrangeiro conhecer São Miguel que um natalense saber que isso aqui existe’’, acredita ela.